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Palavras não Ditas / Dificuldade de Expressão Emocional


Embora a série completa deste conteúdo (lidando com sentimentos) esteja em versão preliminar, este tópico apresenta um desenvolvimento suficiente em si para aproveitamento prático. Contribua com  a Vivência em Cura e ajude para que os textos sobre como lidar com os demais sentimentos sejam desenvolvimentos o mais brevemente possível.


A Ideia
Augusto dos Anjos 

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas da laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica…Quebra a força centrípeta que a amarra
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No molambo da língua paralítica!

As palavras nascem na mente; depois, descem ao plexo solar (no corpo físico, abaixo do diafragma, junto aos órgãos internos) para buscar força para se formarem; então, voltam e são formadas na área da garganta pelo chacra laríngeo e saem pela boca envolvendo a coordenação da força do ar, das cordas vocais e de toda a estrutura acústica formada pelas cavidades internas da boca e começo do tubo digestivo, que é extremamente influenciada pelas tensões musculares e nervosas ligadas a essas áreas, revelando um reflexo fiel de todos os aspectos de nossa personalidade pelo timbre e entonação da voz.

Quando formamos as palavras em nossa mente e não deixamos que cumpram esse caminho acima descrito, elas ficam retidas como palavras não ditas em nosso sistema psicoemocional, apresentando um reflexo muscular de contração no masseter, o músculo mais forte do corpo humano e que, juntamente com outros músculos, sustenta e dá mobilidade ao maxilar. Essa tensão vai se acumulando por somatização com outra atrás do maxilar e abaixo da orelha, num reflexo emocional de raiva: pelo lado direito, raiva masculina; pelo lado esquerdo, raiva feminina. Neste tipo de contexto é extremamente comum a ocorrência do bruxismo, que é o ranger de dentes, principalmente, durante o sono.

É muito importante deixar que as palavras cumpram esse caminho entre a mente e a boca, para que não fiquem presas dentro de nós. Geralmente, a pessoa que apresenta um acúmulo desse tipo de retenção pensa assim: “Não vou falar isso pra fulano(a) pois ele(a) vai se ofender e isso não vai levar a nada. Eu sou forte, vou metabolizar, resolver isso dentro de mim mesmo. Melhor assim…”. Dessa forma, ela fica com as palavras não ditas, a raiva e mágoa acumuladas dentro de si, sem ainda acrescentar nada de bom que possa resolver ou encaminhar a situação a seu favor e também do outro. Ainda ocorre muitas vezes de a pessoa não se expressar tempestivamente, na hora e situações em que as coisas vão ocorrendo e vai acumulando as raivas e mágoas em si, deixando-a as mesmas explodirem em reações desproporcionais a alguns estímulos posteriores a tantos acúmulos sucessivos, gerando episódios de desentendimentos e brigas com pessoas com as quais muitas vezes nem sabiam serem alvo de tantas insatisfações.

Devemos, então, sempre nos expressar da melhor forma possível. Um único cuidado que devemos ter para deixar que as palavras cumpram harmonicamente seu fluxo de formação e manifestação é fazer com que elas circulem ao menos uma vez por nosso chacra cardíaco antes de serem expressas. Dessa forma, tudo o que sair por nossa boca terá, antes, o filtro do amor.

O caminho, então, passa a ser esse:

  • Formação na mente;
  • Descida ao plexo para buscar ar para serem formadas;
  • Ao menos uma circulação no chacra cardíaco para que sejam purificadas pelo filtro do amor;
  • Passagem pela garganta (cordas vocais, chacra laríngeo), com saída pela boca para serem expressas e manifestadas.

A amorosidade é uma qualidade intrínseca que pode estar presente em nossas manifestações de diversas formas, é um propósito e uma conquista pessoal, não havendo uma técnica ou um modelo próprio que por si só leve a ela. Entretanto, há uma dica muito prática para começar a sintonizar a amorosidade na expressão emocional, fazendo com que as palavras sejam purificadas pelo chacra cardíaco, pela expressão amorosa. A dica é falar de si e não do outro.

Exemplos de Falar de Si

 Ao invés de coisas do tipo  Dê preferência a seguinte linha de expressão
“Você é muito controlador, você me invade muito” “Eu me sinto controlado(a) quando você age desse e desse jeito. Eu me sinto invadido(a) quando você faz isso e aquilo ou quando estou perto de você.”
“Você é um safado, um cachorro” “Eu não me sinto bem quando você age de tal e tal forma. Na realidade, eu me sinto um lixo…”
“Você está louco! Nem fude!@$%¨ eu vou fazer essa M#!&* que você está me pedindo” “Eu não vou fazer o que você está me pedindo porque se eu o fizer, EU vou me sentir muito mal comigo mesmo(a). Não vai dar, pois não posso passar por cima de mim mesmo(a) e sei que se fizer isso, depois ficarei com um sentimento muito ruim dentro de mim. É algo meu, não tem nada a ver com você. Eu não ficarei bem comigo. Me sentirei muito desconfortável. Por isso não poderei fazer o que você está me pedindo.”

Começando a agir assim, a pessoa irá ganhando desenvoltura com essa forma de expressão e ficando cada vez mais tempestiva, até que chegará o dia e a situação na qual consiga dizer, sem se alterar, com senso de adequação e impostação, e inclusive com bastante amorosidade, coisas do tipo:

— Para. Eu não quero que isso continue.

— Por quê?…

— Não sei. Só sei que não estou me sentindo bem com esta situação.

— Algo errado que eu fiz? Dá pra ser de outro jeito?

— Não. Não dá pra ser de outro jeito. Não tem nada a ver com certo ou errado. Só sei que não estou me sentindo bem e não quero que isso continue. Não sei dizer ainda nem o que está me incomodando. Se um dia, ou em algum momento, eu souber o que está ruim pra mim, e houver uma oportunidade, eu posso até lhe dizer o que é. No momento, só sei que eu não quero que isto continue. Chega.

Ou ainda:

— Eu me senti roubado(a) quando você fez isso isso e aquilo…

— Você está me chamando de ladrão?!!…

— Eu não estou lhe chamando de nada. O que você é, ou como você se sente, é uma questão pessoal e íntima de você para com você, cabe unicamente a você descobrir e definir isso. Investir o seu tempo e sua energia nisso. Isso não me cabe. Cabe a você. O que acontece, o que eu disse, é que EU me senti roubado(a) quando isso aconteceu. Estou lhe expondo isso com sinceridade e, neste momento, com tranqüilidade, pois estou me direcionando e fazendo o necessário para que isso não volte a ocorrer em hipótese nenhuma. Neste momento, me expressando desta forma pra você, também espero que o nosso contato a médio e longo prazo possa ser preservado e mantido dentro do respeito e da consideração mútuos, pois de outra forma, vejo possibilidades de que isso também possa ser perdido. Acredite: pode ser difícil para você estar ouvindo isso, mas lhe asseguro, e tenho convicção de que você pode sentir isso através do que estou manifestando agora, que também não é fácil para mim falar essas coisas e está aqui diante de você podendo olhá-lo com sinceridade e autonomia. Pelo contrário: este momento também está sendo muito difícil pra mim…

Uma estória para apreciação sobre expressão amorosa:

“Um dia Meher perguntou aos seus discípulos o seguinte:

Por que as pessoas gritam quando estão aborrecidas?

Os homens pensaram por alguns momentos: Porque perdemos a calma, disse um deles, por isso gritamos.

Mas, por que gritar quando a outra pessoa está ao teu lado? perguntou Meher – Não é possível falar-lhe em voz baixa? Por que gritas a uma pessoa quando estás aborrecido?

Os homens deram algumas respostas, mas nenhuma delas satisfazia ao Meher.

Finalmente ele explicou: Quando duas pessoas estão aborrecidas, seus corações se afastam muito.

Para cobrir esta distância precisam gritar para poder escutar-se.

Quanto mais aborrecidas estejam, mais forte terão que gritar para escutar-se um ao outro através desta grande distância.

Em seguida Meher perguntou: O que sucede quando duas pessoas se enamoram? Elas não se gritam, mas sim se falam suavemente, por quê? Seus corações estão muito perto. A distância entre elas é pequena.

Meher continuou: – Quando se enamoram acontece mais alguma coisa? Não falam, somente sussurram e ficam mais perto ainda de seu amor. Finalmente não necessitam sequer sussurrar, somente se olham e se compreendem. E isto é tudo.

Assim é quando duas pessoas que se amam estão próximas.

Então Meher disse: “Quando discutirem, não deixem que seus corações se afastem. Não digam palavras proferidas com mágoas, com ressentimentos, com culpas ou julgamentos nocivos, que os distanciem cada vez mais, pois chegará um dia em que a distância será tanta, tamanha, que não mais encontrarão o caminho de volta, e ai se distanciarão definitivamente.”

Outra coisa a se observar: muitas vezes, para que:

  1. As palavras certas sejam formadas (entendimento, clareza de percepção, conhecimento);
  2. Desçam ao plexo para buscar o ar (envolverem-se de força para serem formadas);
  3. Sejam purificadas pelo filtro do amor;
  4. E se manifestem (ocorrência do momento adequado para que sejam expressas),

pode ocorrer um lapso de tempo bastante grande, pois esse caminho é um caminho energético e também real e não acontece apenas como um único fluxo respiratório contínuo. Pode ser que para que o entendimento (as palavras corretas), a busca de força, a purificação e a oportunidade de expressão ocorram, decorram até mesmo vários anos, dependendo da situação em questão, especialmente quando isso envolve cenários que abrangem pessoas muito próximas e mágoas ou padrões já perpetuados ao longo de muitos anos.

O ideal é que a pessoa comece a treinar com pessoas e situações novas, de preferência inéditas, e com envolvimentos mais leves. Pessoas que nunca viu e que está encontrando uma primeira vez num contato fortuito. Um atendente de estabelecimento comercial, uma pessoa na rua ou qualquer situação assim, com baixo envolvimento. Posteriormente, à medida em que for ganhando confiança e sucesso nesse tipo de situação, a pessoa pode ir evoluindo e começando a se expressar melhor com os outros de uma forma em geral, trazendo esse padrão para relacionamentos mais próximos, até chegar ao ponto de estar com as pessoas mais íntimas e resgatar questões que lhe incomodam há muitos anos silenciosamente, com boas possibilidades de dissolução.

Está disseminando-se um conceito atualmente dentro das áreas de estudo do comportamento humano denominado “comunicação assertiva”, que se traduz pelo princípio de saber se colocar sem deixar que o outro o transgrida, respeitando a si mesmo e seus direitos próprios e naturais, mas também sem a necessidade de que para que isso ocorra seja necessário ser agressivo ou subjugar o outro, mesmo que subliminarmente, impondo falsa autoridade, impingindo medo etc.

A pessoa com dificuldades de expressão emocional também deve dar uma especial atenção à questão da dissolução da defesa invadida e das culpas que também muito provavelmente carrega dentro de si, pois estas três questões estão intimamente ligadas entre si. Fazer isso abrirá canais para que a pessoa também comece a equilibrar o valor entre si e os outros, que antes era sempre pesado a favor dos outros em detrimento de si própria, “sacrificando-se pelos outros sem o devido reconhecimento, valor e contrapartida…”

Em seu livro “Curar o stress, a ansiedade e a depressão sem medicamento nem psicanálise”, o Dr. David Servan-schreiber cita oito métodos para dissolver esses males, um deles é o favorecimento da comunicação emocional, ao qual ele dedica um capítulo em separado do qual estão destacados aqui os seguintes tópicos:

Os quatro cavaleiros do apocalipse para uma comunicação ruim:

    1. Crítica;
    2. Desprezo;
    3. Contra-ataque
    4. Apedrejamento

Princípios da comunicação não violenta:

    • substituir o julgamento, a crítica, por uma afirmação objetiva dos fatos;
    • evitar qualquer julgamento do outro; se falo sobre o que sinto, ninguém pode discutir comigo. Por exemplo: você diz “eu me senti mal quando ocorreu tal coisa”, numa situação assim, não cabe a outra pessoa dizer “não, você não se sentiu mal não…”, os sentimentos são coisas internas e não podem ser inferidos pelos outros. Se você não estiver mentindo, mesmo para si mesmo(a)…, como a outra pessoa poderá dizer que você sentiu ou não determinada coisa?…;
    • a franqueza fará a outra pessoa querer cooperar – desde que, claro, ela esteja envolvida no relacionamento.

Uma situação especial e muito comum que envolve dificuldade em saber cortar alguém ou se colocar, é quando nos vemos com uma pessoa que começa a reclamar, falar mal dos outros ou trazer algum tipo de frequência ruim relatando algo. Dependendo do poder pessoal forte (porém desequilibrado…) dessa pessoa e das relações anteriores que temos com ela, pode ficar ainda mais difícil de conseguir se desvencilhar da situação.

Está crescendo uma nova consciência dentro do planeta Terra e muitos de nós já sabemos que atraímos o que vibramos. Quando estamos falando mal de alguém ou reclamando de algo ruim que aconteceu, muito mais do que estarmos falando do passado, estamos manifestando e perpetuando o mal e o sofrimento justamente enquanto estamos falando. Cada vez mais as pessoas entendem isso e, naturalmente, procuram se afastar de quem persiste em se manter nesse erro tão primário de ecologia pessoal.

Entretanto, no que tange a dificuldade de expressão emocional, muitas vezes, quando nos vemos em situações com pessoas que ainda se mantêm assim podemos nos cair em duas armadilhas muito comuns:

  1. Ficar aguentando a conversa chata e até mesmo doentia, nos fazendo sentir mal e alimentando o corpo de dor da pessoa, perpetuando seu padrão de continuar dessa forma, achando que as pessoas tem mais mesmo é que ouvir sua lamúria, reclamação, exaltação ou seja lá o que for nesse sentido, concordando com elas, dando-lhes força ou sentido que são coitadas mesmo, dignas de pena. Agindo assim, as alimentamos com nossa energia e a incentivamos a continuarem assim…
  2. Entrar numa disputa e dizer que elas não devem ser daquele jeito ou ainda entrar no mérito das questões que elas estão expondo e assim gerar uma disputa de opiniões, o que gera uma situação de troca desqualificada de energia e consagra, entre ambas as partes, uma defesa controladora.

O que fazer, então?…

Sob a ótica da comunicação assertiva e expressão emocional aqui exposta, podemos lança mão de uma atitude do tipo “Olha, Fulano, eu não me sinto bem com conversas desse tipo, de falar de Cicrano ou Beltrano, prefiro mudar o rumo da história. Não é nada com você, é comigo, não me sinto bem. Gostaria de continuar interagindo com você, mas não com esse tema ou com essa ótica que estamos tendo aqui. Pode ser?” ou “Oh meu anjo, eu não estou afim de ficar falando de doenças ou problemas no momento. Eu sei que você está numa fase difícil, mas também é difícil pra mim, neste momento, ficarmos abordando isso. Quero ficar mais um pouco com você e se entrarmos por esse caminho vou me cansar rápido e não poderemos ficar mais tempo juntos. Quero ajudá-lo(a) e sei que se ficarmos nessa, além de não te ajudar também não vou ficar bem comigo mesmo(a).

Se, mesmo após seus alertas, o padrão não mudar, para o bem de todos, passe menos tempo com essas pessoas. Se forem próximas e você gostar nelas, respeite a decisão interna, mesmo que inconsciente, de seus espíritos de escolherem se identificar com seus corpos de dor, mas não alimente mais isso nelas ou deixe que também desperte seu próprio corpo de dor. Por amor…

Manifestar-se, de uma forma em geral, é um remédio para palavras não ditas, pois aquele conteúdo que se cria inicialmente na mente com estruturação mental direta, muitas vezes canalizadas diretamente para alguém, também podem ser liberados através de todos os tipos de expressão em doses “homeopáticas” e ou de diversas dissoluções sucessivas. A arte é um ótimo canal para isso, pois libera os conteúdos com grande auxílio do inconsciente. Aprender, dentre outras técnicas, a usar a Inclusão Digital a seu favor nesse sentido de saber se manifestar, se colocar diante do mundo, é de grande valia. Ter um site pessoal no qual possa publicar suas idéias, criações, intenções, direcionamentos de uma forma em geral é extremamente poderoso e eficiente.

Que você, e todos nós, possamos nos expressar bem e com qualidade emocional, amorosa e assertiva.


Aqueles que encontram as palavras certas nunca ofendem ninguém.
E, no entanto, eles falam a verdade.
Suas palavras são claras, mas jamais ásperas.
Eles não recebem ofensas e não as dão.
O Buda


Conteúdo Atualizado em 28/05/2015    |    Versão 1.3.8    |    1ª Versão Abril / 2006

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