Quando é que nos Perdemos de Nós Mesmos?



Assistindo a esse vídeo, muito engraçado, do Thiago Ventura, lembrei-me de uma passagem muito interessante da minha própria vida. O humor é uma forma maravilhosa de tratar assuntos profundos, entregar conteúdos, superar dificuldades e serve ainda em tantos outros momentos como um recurso muito importante.

Essa história que ele conta de forma tão engraçada traz em seu cerne algo muito profundo. Para falar um pouco sobre isso, irei lançar mão dessa própria passagem de minha vida a que fiz referência.

Eu era ainda bastante novo, algo entre cinco e seis anos. Estava na rua com outros garotos da mesma idade. Não lembro de onde veio a história. Só sei que um garoto que estava passando de bicicleta ficou incomodado ou com raiva de alguma coisa que fizemos e, mais especificamente, de mim.

Diz que quem bate não lembra, mas quem apanha não esquece. Realmente não lembro o que fizemos ou que tipo de chacota ou brincadeira lançamos. Normalmente, nunca fui de começar brincadeiras de quebraria ou zombaria. Mas, como se diz, para fazer parte de um grupo, acabamos entrando na onda…

Pois bem, eu estava ali com mais uns dois ou três garotos e passou um outro em torno da mesma idade de bicicleta na rua. Não conhecido por nós. Como disse, não lembro o motivo, só lembro que esse que estava passando de bicicleta, um pouco mais longe já, gritou para nós que já estávamos ficando mais para trás da passagem dele, mais direcionado para mim, “Filho da Puta!!!”.

Lembro perfeitamente que, naquela época, ou nem sabia o que ele estava falando ou, realmente, não me senti atingido por suas palavras. Essa memória chega para mim de uma forma que realmente não estávamos fazendo nada muito demais ou sendo maldosos. De qualquer forma, aquele garoto se sentiu atacado e retrucou.

É bem claro pra mim que ele disse alguma coisa de longe, mas eu não estava nem aí para aquilo. Realmente, não chegou em mim. Simplesmente, por assim dizer, passou direto. Caramba… O mais forte veio em seguida. Um dos garotos que estava no meu pequeno grupo falou “Poxa, você vai deixar?…”. “O quê?…” Eu disse. Não havia sentido nada até aquele momento.

“Ah, ele xingou a sua mãe. Isso não pode acontecer nunca.”

Put´s. Ali houve uma ruptura de meu próprio eu, embora ainda numa fase tão precoce. Não saí correndo atrás do outro garoto, não houve nada demais ali naquele momento no ambiente externo. Mas, a partir daquele dia e daquele momento, havia sido implantada em mim, comprei, de alguma forma, a preocupação com o que os outros acham, pensam, dizem ou sentem.

Realmente não havia sido atingido pelo xingamento do menino da bicicleta, mas caí numa espiral descendente, desde então, a partir do que achei que deveria ter sentido, ou não, por conta do que alguém disse, de seus próprios valores e condicionamentos.

Interessante que, 40 anos depois, em um retiro de Vipassana, dez dias de silêncio, dez horas de meditação por dia, ouvi uma história onde alguém entra na casa de Buda para insultá-lo e ele não recebe os insultos.

O camarada estava muito chateado com as pregações de Buda, pois suas filhas estavam sendo influenciadas pelo o que ele dizia e estavam começando a questionar alguns preceitos de sua própria religião. Então, esse cara, o pai delas, resolveu ir lá dar umas bolachas em Buda. Entretanto, ele já sabia que Buda era um cara muito esperto. Já haviam dito isso a ele. Sabia que se deixasse Buda começar a falar poderia dar tudo errado, pois ele era muito convincente.

Então, o cara resolveu entrar na casa de Buda já o xingando, não dando espaço para argumentações. E assim o fez. “Seu isso! Seu aquilo! Seu aquilo outro”. E Buda lá, de boa, continuando a fazer o que já estava fazendo, disse:

— Você não é Fulano de Tal? Eu sei quem é você.

— Sou sim. E daí?!!!

— Você não tem aquele palácio caríssimo no lugar tal?

— Sim. Tenho. E daí?!

— Sei que você sempre dá grandes festas e recebe muitos convidados.

— Dou sim. E daí?

— O que você faz se um de seus convidados chega com um presente que você não quer?

— Eu devolvo pra ele.

— Pois é, eu não recebo seus insultos. Pode levá-los de volta contigo.

O sujeito ficou impressionado, comovido, tocado. Bem, para entender essa história, temos de considerar que Buda era um cara iluminado. Ele disse isso no poder da palavra da verdade. Ele realmente não recebia aquilo. Ou seja, não havia se afetado por aquilo. Passou por ele sem atingi-lo. Ele não disse aquilo para fazer raiva ao camarada. E o cara sentiu isso, claro. Foi transformado imediatamente. Ficou tocado por aquilo e perguntou:

— Impressionante. Como você faz isso?

Daí Buda falou:

— Senta aí. Inspira profundamente. Solta o ar.

E começou a ensinar-lhe sua técnica…

Caramba, quem dera se além daquele garoto que me botou uma pilha filha da mãe em mim naquele dia, eu tivesse ali do lado também um Buda para me orientar. Até aquele dia, filho da puta, era para mim apenas um conjunto de palavras que não me tocavam. A partir dali, não importava muito em que contexto ou com que força ou intenção essas palavras apareciam no alcançar de minha percepção, sua simples aparição já era motivo para me deixar muito atento e pré disposto a entrar em uma onda ruim…

Acompanhando os ensinamentos de Leslie Temple, comecei a praticar a dissolução da compulsão de interromper os outros para acrescentar em suas histórias pedaços de minhas próprias histórias. Coisa que fazemos compulsiva e constantemente na tentativa de afirmarmos nossos próprios egos. Depois de muito já andar com essa prática, tentei um nível ainda mais avançando, não reagir ao ser insultado ou afrontado de alguma forma, deixar pra lá a necessidade de autoafirmação mesmo diante de ataques.

Put´s, havia formado ao longo de muitos anos o conceito de quem agia assim era por conta de ser bundão, medroso, fraco ou qualquer outra coisa assim. Como a própria Leslie diz, a raiva é um dos últimos portais que temos de atravessar rumo à liberação. Refletindo e vivenciando esse estudo, comecei a perceber a dimensão de liberdade de ser insultado por alguém e deixar aquilo simplesmente não te atingir. É diferente de não reagir e levar aquilo pra casa e ficar remoendo a cena, jogando enzimas e hormônios danosos dentro de si mesmo por não ter falado nada.

É outra coisa. É, realmente, simplesmente não ser atingido por aquilo. Saber que não é seu. É da outra pessoa. Há cerca de um ano, o milagre aconteceu pela primeira vez. Uma situação real aconteceu no trânsito e alguém me xingou e, diferentemente de tantas outras vezes, aquilo não ficou registrado em mim, não houve reação, não houve retenção. A pessoa que estava comigo foi quem reagiu e falou para mim o quanto o outro cara estava errado e enganando. Não respondi nem mesmo a esse comentário falando qualquer coisa tipo “Pois é, viu que doido?…”. Nada, simplesmente nada. Deixei a história morrer por si mesma por falta de empregar energia nela.

Quando é que nos perdemos de nós mesmos?

Em Constelações Familiares (já ouviu falar?…), vemos a respeito da necessidade de pertencermos aos grupos dos quais participamos, começando pela família e progredindo rumo à cultura, sociedade, país e outros grupos mais específicos. Temos uma boa consciência quando fazemos o necessário para sermos aceitos por esses grupos e uma má consciência quando fazemos coisas que, de alguma forma, nos afastam ou nos desligam desses grupos.

Por exemplo, um garoto de uma família de ladrões se sentirá numa má consciência se chegar em casa sem o produto do roubo. Para ele, a boa consciência é roubar…

Podemos entender que a doença começa quando começamos a nos esquecer de quem somos. Nos perdermos de nós mesmos a partir do momento em que nos desconectamos de nossa essência profunda e passamos a ser guiados por princípios externos ou mesmo por motivações exclusivamente egoicas.  O ego, assim como a mente, não é um vilão. Entretanto, polarizado, desequilibrado e lutando para assumir o poder e o controle de tudo, nos traz desafios bem complexos e desagradáveis.

As coisas tanto do nosso ambiente externo quanto interno mudam constantemente. Passaremos invariavelmente por momentos bons e ruins, ondas difíceis e ondas suaves. Em qual momento você se desconecta de si mesmo(a) e se confunde com essas ondas que estão passando? Acompanha e dá energia a pensamentos que o levarão, que a levarão, a resultados de sofrimento?

Em qual momento você acredita no que falaram sobre você? Que você xinga ou se desfaz de si mesmo(a) de alguma forma? Pense nisso.

Luiz Antonio Berto – Idealizador da Vivência em Cura.


Publicado em 10/09/2016 – Versão 1.0.1 – Atualizado em 14/09/2016

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