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Vivência Mística


A busca pela vivência mística é um acontecimento natural dentro de cada um de nós, que surge a partir da necessidade de sentir uma confirmação para nossa percepção, muitas vezes oculta, de fazer parte de algo maior do que apenas a realidade física. Muitos consideram essa busca como algo totalmente místico/esotérico, outros como respostas a questões metafísicas. Entretanto, esse conteúdo pode nos emergir de formas as mais distintas, inclusive amorosas e poéticas. Há, por exemplo, uma poesia de Carlos Drumond de Andrade que lembra bastante esta questão, chamada "Carrego Comigo".

Este tipo de vivência pode ser considerada uma etapa muito especial dentro do que se pode considerar como sendo o encontro pessoal, o encontro por uma resposta sobre os nossos propósitos de vida pessoais e coletivos, sobre o como podemos viver melhor e mais integradamente com tudo o que nos cerca, pois envolve necessariamente a amplificação de nossa consciência através de planos transcendentes à mera percepção física e/ou intelectual da vida. Há um livro muito simples, poético e ao mesmo tempo profundo sobre a busca pessoal: Sidarta, de Hermann Hesse.

Segue abaixo um trecho extraído do texto de Alex Polari de Alverga (padrinho do Santo Daime), que trata do papel das plantas psicoativas no processo evolucionário da consciência humana, em especial a participação da ayahuasca, pontuando as principais
características de uma vivência mística:

  • inefabilidade, incapacidade de narrar em palavras os primores alcançados com toda sua riqueza de visões e sensações;

  • caráter irretorquível das verdades vivenciadas, o que pressupõe uma grande potencialização do dom da intuição;

  • sensação de unicidade;

  • experiência subjetiva de fusão do Eu no universo;

  • transcendência do tempo e do espaço, sensação de emergir beatificamente no Eterno Agora;

  • sensação de profunda positividade frente à vida;

  • reconhecimento da sacralidade do caráter divino da experiência obtida;

  • aumento do poder de concentração e cognição;

  • sensação de conforto e estímulo moral para desempenhar as instruções recebidas;

  • insights reveladores e valiosos para o solucionamento de conflitos internos;

  • reverência e humildade frente ao desconhecido, serenidade frente a aceitação da morte e a compreensão desta como uma transição para uma vida desmaterializada e de pura consciência;

  • predisposições de altruísmo e abnegação;

  • visualização da linguagem.


Ressalta-se que:

1) não somente através do uso de princípios psicoativos podemos alcançar estados alterados ou expandidos de consciência (veja texto específico), que induzem a um forte impulso para alavancar experiências iniciais dessa natureza (agradáveis ou não, controladas ou não...).

2) a vivência do fenômeno místico depende da abertura da pessoa para tal evento, dependendo da confluência de diversos fatores distintos.

Em momentos e ambientes terapêuticos são comuns a manifestação desse fenômeno, especialmente para quem está na prática da vivência terapêutica já há algum tempo. Entretanto, não utilize essa situação para focar essa vivência, especialmente se a estiver buscando pela primeira vez, sob a pena de desfocar o foco terapêutico de seu propósito e desvirtuar ambas as experiências (terapêutica e mística), abrindo canal inclusive para a ocorrência de surtos negativos de percepção e comportamento.

Estados meditativos e de ressonância profunda são os caminhos mais suaves e seguros para este tipo de evento, embora sejam mais demorados e exijam sua prática, estudo e vivência por longos períodos...

 

Alguns canais, indutores e potencializadores para as vivências místicas:

  • Meditação - é o canal mais forte e o mais seguro, entretanto, demanda dedicação, paciência e longo prazo até que se comece a sentir e perceber os resultados;

  • Terapias diversas - quando desprovidas de um apego à técnica a ser utilizada, as vivências terapêuticas também podem constituir-se de canais místicos, uma vez que em muitos casos, é exatamente desse tipo de experiência/vivência que a pessoa está precisando para encontrar seu canal de cura. Terapias diversas, como a imposição de mãos, a homeopatia, a hiperventilação (para citar apenas três com as quais tenho experiências pessoais sob este prisma) podem ser canais místicos;

  • Massagem terapêutica - dentre as terapias, destaco esta, pois além de todos os benefícios terapêuticos e do prazer que pode gerar durante seu recebimento, atesto este meio como um dos indutores mais fortes para estados estasiáticos;

  • Vivências emocionais extremas - muitas vezes de ocorrências involuntárias e até inevitáveis, os estados emocionais extremos também podem ser canais indutivos para as vivências místicas. Já ouvi mais de um relato, por exemplo, de pessoas que sentiram estados alterados de consciência profundos durante os momentos envolvendo a morte de pessoas muito próximas. Casos como quase acidentes ou recuperação de acidentes efetivados também são passíveis de gerar novos estados de percepção e atitudes, inclusive gerando mudanças significativas de vida e de propósitos;

  • Liberação emocional intensa - cabe, antes de mais nada, distinguir a liberação emocional intensa de vivências emocionais extremas. As liberações emocionais extremas são geradas dentro de processos terapêuticos específicos (que se espera serem conduzidos responsavelmente por profissionais competentes e conscientes). Têm como propósito a manifestação e a liberação de "entulhos" emocionais que normalmente já se está carregando a muito tempo, como verdadeiros fardos para todo o sistema físico, emocional, psíquico e espiritual. Podem ser realizadas em meditações ativas, como os AUM (realizados nos centros Osho), em terapias de Core Energetic, da escola de John Pierrakos e que visam atingir a livre manifestação da energia da essência, ou ainda em processos diversos, como danças rituais, vivências xamânicas, dentre outros;

  • Trabalho  com mantras - esta técnica também exige bastante dedicação e demanda longos prazos em sua prática. Entretanto é bastante segura e poderosa, podendo ser associada a técnicas de meditação. É absolutamente incrível o que se consegue a nível de expansão de consciência e retomada de estabilidade utilizando-se, por exemplo, a chaves psíquicas e emocionais proporcionadas, por exemplo, pela aplicação de exercícios com o OM...;

  • Sexo tântrico - a respeito desta técnica, caberiam teses e teses, já são muitos os livros a este respeito. Transcender as tendências puramente carnais e focadas na reprodução ou prazer orgânico através da prática do sexo tântrico, procurando atingir elevação espiritual, ressonância e influxo energético, estando ciente de si e do outro durante a relação sexual: este caminho pode, e deve, estar associado a meditação e é uma fonte mística poderosa e, com certeza, totalmente especial  e ímpar em sua manifestação;

  • Integração consciente dos conteúdos emocionais, psíquicos e espirituais de situações marcantes de vida, como tornar-se pai/mãe; participar/acompanhar um parto; prevenir/evitar uma morte; assistir a consagração de um filho(a); apresentar-se para uma multidão; dentre tantas outras vivências...;

  • Uma variação específica do item anterior encontra-se na realização de metas pessoais profundas, como concluir um curso superior; participar de uma mobilização social intensa; construir uma casa há muito sonhada; realizar projetos pessoais saudáveis, de uma forma em geral;

  • Atividades físicas intensas realizadas com esse propósito místico/espiritual: correr uma grande distância; caminhar vários dias consecutivos em peregrinação consciente;  praticar exercícios bioenergéticos de posições de estresse; dançar muitas horas seguidas, buscando o transe, pessoal ou coletivo. Assim como os jejuns, estas práticas também exigem preparo prévio e consciência do que se está fazendo e buscando, de forma a evitar seqüelas orgânicas e desgastes que não levam a lugar algum a não ser ao auto-consumo e cansaço desnecessários;

  • Imersão em locais de poder - cachoeiras, cavernas, templos, locais com registros históricos marcantes, viagem espacial...;

  • Vivência de sonhos lúcidos;

  • Jejum - este indutivo é poderosíssimo, exigindo daquele que dele lança mão consciência e responsabilidade em sua utilização, de modo a evitar seqüelas orgânicas muitas vezes dificílimas de serem resgatadas. Sugiro a leitura do texto Jejum Racional antes de investidas sobre este método, que além de indutor a vivências místicas é forte canal de desintoxicação e purificação. Outra recomendação importante antes de tentar esta prática é que a pessoa passe por um processo significativo de reconhecimento e dissolução, mesmo que parcial, de sua própria defesa oral/carente;

  • Jejum de sono - assim como todos os outros processos de indução física, este merece preparo prévio e gradativo de quem dele for lançar mão;

  • Uso de psicoativos diversos - vale ressaltar que a maioria dessas substâncias são de uso ilegal, o que já é um grande transtorno, além dos efeitos colaterais e desgastes tóxicos que podem gerar ao organismo. Esses desgastes são os principais ativadores de depressões agudas após experiências com substâncias dessa natureza, em decorrência de variações energéticas significativas sem o prévio preparo da pessoa para passar por esse tipo de experiência.
    A maioria dessas substâncias apresentam a característica de trazer resultados fortes com pouco esforço, em contrapartida, de pouca longevidade e não passíveis de serem retomados facilmente pelo próprio esforço pessoal, entretanto, podem servir como um ponto de referência para que a pessoa possa resgatar, através de muito trabalho pessoal, aquele estado atingido.
    Devido ao altíssimo influxo energético que podem gerar, facilmente podem abrir canais para a manifestação de surtos indesejáveis, inclusive ocorrendo com freqüência o que se chama de "viagem ruim", que embora não passe na maioria das vezes de algumas horas, pode levar a momentos (intermináveis...) de terror e pânico.
    Estados alterados gerados por  psicoativos também estão muito propensos a gerarem distorções de percepções, uma vez que muito poucos deles têm a capacidade de gerar expansão de consciência (as exceções estão em algumas plantas de poder), promovendo apenas uma alteração da consciência, que "cresce" apenas sob um determinado aspecto, voltando ao "tamanho normal" após passado seu efeito.
    Outro aspecto muito importante é que essas substâncias vêm historicamente sendo usadas com a conotação apenas de se conseguir "ficar doido", perder o próprio senso, obter sensações que levem a fuga de problemas e dificuldades, o que normalmente gera um mal contexto onde são utilizadas. Há também de se fazer uma distinção entre as substâncias psicoativas desenvolvidas quimicamente e que são distribuídas através do narcotráfico e as chamadas plantas de poder, que possuem propriedades naturais e foram, e ainda são, utilizadas por curandeiros tribais e em rituais religiosos/místicos dos povos da floresta.
    Uma distinção ainda muito importante a ser feita é em relação ao álcool: embora apresente o efeito, a partir de uma ação psicoativa, de liberar as emoções (o que pode em determinados casos ser até positivo para pessoas muito retidas neste particular), o álcool tem o efeito devastador de aniquilar a consciência, chegando aos extremos da amnésia e do coma alcoólico, sem contar ainda os inúmeros males orgânicos que causa. Como se esses argumentos ainda não fossem o suficiente para evitá-lo, segue mais um: basta um único porre para que a pessoa possa entender e absorver todos os eventuais "ensinamentos" que o efeito do álcool possa lhe transmitir. Em nível de aprendizado, tanto faz tomar um porre, quanto 10, 200 ou 1000, nada será acrescentado à primeira experiência.
    Em "O Alimento dos Deuses", de Terence McKenna, pode ser encontrado uma pesquisa histórica bastante completa a respeito do poder e relação das plantas e drogas com a evolução humana, bem como uma visão bastante crítica a este respeito, diferenciada do tratamento tradicional alarmista e unilateral normalmente focado pela mídia ocidental.

Como pode ser facilmente constatado, cada um desses canais/indutores está focado a partir de cada um de nossos quatro corpos inferiores: emocional, físico, mental, espiritual (neste caso os processos relacionados aos canais que partem da associação com os atos e realizações). Mais importante que utilizar determinado canal é estar atento para não perder a conexão e o alinhamento entre esses quatro corpos, procurando mantê-los unidos, onde um estiver, que os outros também estejam. A médio e longo prazo é bastante enriquecedor ter experiências com canais diversos. Associar métodos também trará resultados mais significativos.

 

Uma questão muito importante em relação a busca pela vivência mística, é o cuidado que a pessoa deve ter em relação a abrir canais e percepções apenas para os quais estiver preparada. A propósito dos riscos aí envolvidos, segue abaixo um trecho do livro "A Doença como Símbolo", de Rüdiger Dahlke, que trata à respeito das crises espirituais:

Crise Espiritual (processo da kundalini; ver também Psicose)

Plano sintomático: a membrana entre o reino das sombras e a consciência diurna é diluída por exagerados exercícios espirituais, e a alma é abandonada sem proteção às sombras; a abertura por demais rápida e ambiciosa converte-se em maldição; os afetados deixam de ser senhores em sua própria casa (corpo): imagens interiores inundam a pessoa e adquirem poder; o medo (por exemplo, de se dissolver ou se perder) torna-se preponderante; o pânico do ego ante seu ocaso passa a ser a sensação determinante da vida.

Tratamento: busca de contato com a terra, para poder suportar as experiências em curso e a partir de uma sensação do próprio corpo: por exemplo, trabalhos no jardim, que fazem suar; promover tudo o que esteja relacionado ao corpo, incluindo o sexo, contanto que leve ao esgotamento e não seja realizado com intuito tântrico; comida substanciosa, para que o corpo possa pesar tranqüilamente; passeios na natureza, que acentuam o contato com a terra; os mais variados tipos de relações com a matéria, como arrumar alguma coisa, limpar (ocupar-se simbolicamente do mundo inferior de um modo ordenador); todas as demais medidas sensibilizadoras (como alguma meditação e outros exercícios espirituais que apontem para a transcendência); nenhuma droga, ou então, se o vício existir, somente a clássica válvula de escape que é a nicotina.

Remissão: envolver-se diariamente e de modo prático com a cobertura do fogo (energia kundalini), com o elemento água (mergulhar no mar de sensações e imagens), com a leveza dos mundos de pensamento (ar) e também com o elemento terra: deixar que entre em si; reconhecer o reino das sombras sem se agarrar a ele; esticar em primeiro lugar a cabeça para o Pai que está no céu, com as raízes dos pés bem fincadas na Mãe Terra.

 

São detalhes/direcionamentos importantes para quando for realizar sua vivência:

  • não utilizar álcool, tanto em decorrência do desligamento da consciência que este tipo de substância é capaz de desencadear quanto pela debilidade posterior que promove no organismo, podendo ativar ou agravar as eventuais depressões citadas no item acima sobre psicoativos;

  • procurar ficar sozinho(a). Este item será particularmente difícil para algumas pessoas, mas mantenha-o firme. É bastante provável que você sinta a necessidade de ter seres humanos por perto, o que é bastante normal, uma vez que a percepção espiritual fica bastante aguçada, trazendo em si própria uma necessidade de um referencial de segurança junto ao mundo físico. O mais importante é que o campo energético de outras pessoas não influa no seu. Pode ter gente por perto, mas fique afastado(a), isolado(a). Se der "nóia", vá para baixo de uma árvore;

  • procure um lugar que tenha natureza abundante à sua disposição;

  • situações de retiro são ideais para as primeiras tentativas. Os festivais trance são particularmente intensos e ricos para esse propósito;

  • tenha pessoas de confiança no local para o caso de realmente precisar de recorrer a alguém;

  • faça a primeira experiência durante o dia;

  • não espere nada, apenas procure sentir absolutamente tudo o que ocorrer com você;

  • tenha água à mão.

Boa vivência!

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Arquivo atualizado em 16/05/06
Versão  3.3.1 - 1ª Versão: Agosto/2003

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Luiz Antonio Berto
Desenvolve estudos e práticas sobre o conceito de "Terapia Energética" (*),
tendo formação em Comunicação Social - Publicidade e Propaganda -
e cursos técnicos de quiropraxia, bioenergética emocional e massagem terapêutica,
atuando profissionalmente nesta área desde 2001.
(*) Atividade ligada a autoconhecimento, busca pessoal e expansão de consciência.
(61) 9963-0877 - Brasília (DF)

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