Dissolver a Competitividade (continuação – parte final)


Foto: Vanessa OliveiraO ser humano chegou a um ponto tão maluco de sua psique competitiva que conseguiu criar campeonatos, por exemplo, de surf, algo que deveria ser apenas para o prazer, desligado dos malefícios da competitividade. O Guiness Book está repleto de descabimentos de coisas nas quais as pessoas querem ter a sensação de serem a melhor do mundo de alguma forma. Cada um de nós já é o melhor do mundo em alguma coisa: em ser o que se é, em viver seu próprio dharma e manifestar um aspecto único de Deus que pode ser realizado apenas por cada um de nós em específico. Mas não achamos essa conexão dentro de nós próprios, então sentimos a necessidade de sermos externamente o melhor do mundo em alguma coisa, para preencher um vazio interno que não se consegue suprir por si mesmo. A estória competitiva mostra claramente que os atletas não se saciam com uma grande vitória, preenchem-se dela por um período de tempo muito curto, já em seguida começando seus preparativos para uma nova conquista.

Também existe uma crença de que o atleta competitivo aprende muito vencendo seus próprios desafios, tornando-se uma pessoa altamente capaz em outras áreas da atividade humana. O arquétipo do atleta vencedor também é utilizado como exemplo daquele que muitas vezes “venceu” condições adversas e de exposição à marginalidade se orientando pela vida esportiva, servindo como exemplo de modelo social, especialmente para as crianças. Uma parte disso é bem verdadeira. Mas há algo que também deve ser considerado quando se trata de uma profundidade de percepção mais elevada como a que se está evocando aqui: o custo X benefício e o contexto desse quadro.

Pense na seguinte analogia: uma pessoa que se interessa pela música e começa a tocar um instrumento de percussão, pode logo se juntar a outros amigos e formar uma pequena banda ou grupo. Digamos que um deles já tem alguma habilidade com um instrumento de cordas e eles começam a ensaiar sambas e pagodes. No começo, eles tocam em várias situações diferentes, para diversos públicos, em diversos contextos. À medida em que vão melhorando, não querem mais tocar de qualquer jeito. Não se trata de ficarem “metidos”, mas sim do desenvolvimento da habilidade e exigência musical como um todo. Já não dá mais para tocar com instrumentos desafinados, equipamentos ruins e por aí vai. A percepção já está suficientemente desenvolvida para distinguir entre música e “zoada”. Eles agora querem ser músicos…

Quando o ser humano começa a trocar a guerra campal pela competição esportiva, há um grande avanço. Quando um indivíduo potencialmente perigoso e desequilibrado deixa de bater nos outros na rua e começa a canalizar sua agressividade para a luta competitiva, há um grande avanço.

Entretanto, quando estamos numa situação de rota de colisão no Planeta e o futuro da humanidade e da própria vida de uma forma em geral está dependendo do que todos nós estaremos fazendo, cabe dar o salto, entrar numa oitava de consciência mais profunda e dissolver os efeitos totais da cultura da competitividade.

É muito claro como as Olimpíadas são usadas para exposição pública mundial da diferença entre os países, onde os mais ricos e que investem mais em sobrepor sua hegemonia às dos demais conseguem melhores resultados estatísticos, mais medalhas. Durante a guerra fria ficou evidente como as Olimpíadas foram usadas para isso, inclusive com os boicotes dos países aos Jogos realizados dentro dos estados pertencentes aos blocos econômicos distintos entre si.

O maior exemplo que temos para nossas crianças é a não competitividade, a dissolução dos estados nacionais, a vivência da harmonia e aceitação entre os povos, acolhendo a diversidade cultural, racial, religiosa e todas as demais.

O exemplo do serviço voluntário é mais forte e profundo do que o da competitividade, ainda tendo o mérito de não contar com efeitos colaterais. Os efeitos colaterais da competitividade são a crença na guerra e na oposição e conseqüentemente a disseminação e proliferação dessas manifestações, desde disputas mentais e de posições a brigas efetivas, desde os níveis mais sutis, nos conflitos internos e entre as pessoas até os conflitos armados entre os povos e nações; o entendimento de que os bons sobrevivem e os maus sucumbem e de que tudo o que se consegue na vida é com esforço (e não com harmonia…); e a difusão de algo muito destruidor: o sentimento de que só tem valor aquele que é vencedor…

Patrocinar os esportes, tanto em esferas particulares quanto estatais, é algo que tem tido todo um valor benéfico associado. Mas é algo que não faz sentido para a espécie humana como um todo. Para que serve financiar uma pessoa para ser alguns milésimos de segundo mais rápida do que outras? Milimetricamente mais forte ou mais sagaz?

Faça um comparativo entre o patrocínio artístico e o competitivo: o que define a arte? Muitas coisas. Dentre elas, o fato de a pessoa que observa o produto da arte entrar em contato com o estado em que o artista estava envolvido quando produziu o objeto artístico ou o momento da arte em si (como na dança). Nesse contato, fica claro que o artista estava num estado de elevação e harmonia com todo o restante do universo quando envolvido com sua produção artística. Esse é um dos fatores de a arte ser tocante. Para a espécie humana, faz sentido patrocinar as pessoas para que elas entrem em harmonia com consigo mesmas, com seu próximo, com a sociedade, com a natureza, com o Planeta, com todas as coisas. E ainda mais: faz muito sentido que o resultado dessa conexão ressonante seja multiplicado para outras pessoas que entrem em contato com essa arte produzida. Pense nisso durante alguns dias e observe. Não é necessário que chegue a aceitação, rejeição ou conclusão a esse respeito agora. Deixe passar algum tempo observando isso. Alguns meses, ou até mesmo alguns anos se necessário for. Depois tire suas próprias conclusões…

Há outra coisa muito interessante sobre a qual se deve fazer uma reflexão profunda: embora num primeiro momento possa parecer que a competitividade e os bilhões de dólares anualmente gastos mundialmente com as competições possam estar incentivando as pessoas à atividade física, o que ocorre é justamente o processo oposto: mesmo que alguns milhões de pessoas sejam atraídas para o esporte em decorrência dos holofotes ali encontrados, ou quaisquer outros estímulos, bilhões de seres humanos são afastados dele, o esporte, e não apenas isso, mas das atividades físicas saudáveis de uma forma em geral, em decorrência da carga competitiva e de exclusão de uma forma impressa nada sutil.

É muito constrangedor “não se estar à altura” dos demais naquela prática em que a pessoa se colocou como experimentador. Considere que o contato inicial com os esportes ocorre quando estamos numa fase de formação de nossas personalidades e as chacotas dos colegas de colégio e de turma são vorazes… O clima de carícias frias do ambiente competitivo é flagrante em muitos e muitos casos, provavelmente na maioria deles.

A atividade física é mais importante do que o esporte. O esporte é mais importante do que a competitividade. Olha só: no Brasil, há um Ministério do Esporte (que desde 1937 tem um histórico mais ligado a secretarias e departamentos dentro do Ministério da Educação, na tônica de ensino de esportes, Educação Física, no sistema educacional). Que tal se, ao invés disso, tivéssemos uma secretaria de atividade física dentro do Ministério da Saúde? Estranho isso? Estaríamos diminuindo o número de praticantes de atividade física e de esporte por estarmos “diminuindo” o esporte de ministério para secretaria? Qual as implicações de as diretrizes migrarem (como mais anteriormente) da esfera da educação física e (mais atualmente) do direcionamento para competitividade para o campo do entendimento da atividade física como sendo uma das bases da saúde?…

Considere uma partida onde não aja tanta competitividade, mas apenas pessoas se colocando mutuamente à disposição para auto-desenvolvimento. O ping-pong, por exemplo, é um ótimo exercício. É algo em que duas pessoas podem se divertir a valer durante uma ou duas horas seguidas sem ficar contando pontos, pois a contagem pode ser facilmente perdida se não se ficar psicótico com ela, é tudo muito rápido. Ao final de um tempo qualquer, o que aconteceu foi que você “deu algumas boas raquetadas”, mas também tomou umas cortadas desconcertantes. Tanto faz se foi 129 X 128, 230 X 179, 60 X 90. Em alguns momentos você esteve melhor, em outros não. O mais importante ficou: você se exercitou, desenvolveu suas habilidades, percebeu seus limites, se divertiu, riu com seu companheiro(a).

Corridas de longa distância com milhares de pessoas ao mesmo tempo transpondo percursos em conjunto são lindas. Uma grande manifestação humana na Terra. Fortalecem os espíritos individuais, favorecem o estímulo do grupo para as personalidades e enobrecem a espécie humana como um todo. Basta isso. O fato de ter uma largada num horário milimetricamente determinado, marcado por um tiro, onde os mais competitivos e preparados no momento estão estrategicamente posicionados para largarem a toda velocidade desde o começo e cronometrando suas performances com o tempo mecânico apenas empobrece toda a riqueza do que se tem nessa estória toda. Um evento tipo maratona poderia começar mais tranqüilamente, numa linda manhã de sol, com apoio do poder do estado fechando o trânsito e dando proteção e apoio para as pessoas. Quando tudo estivesse pronto, as pessoas poderiam começar suas corridas, sem a paranóia de saber quem foi o mais rápido, o mais forte, o mais sagaz, o mais perfeito dentro das regras específicas previamente estabelecidas. Regras essas que inclusive mudam de tempos em tempos, mudando tudo…

É evidente que sem competitividade muito mais pessoas poderiam estar integradas aos esportes e às atividades físicas de uma forma em geral. Mesmo os atletas mais sagazes e vorazes também seriam beneficiados, não precisando de se exporem tanto a lesões e processos de mortificação, aspecto intimamente ligado às duras rotinas de preparação. Bem, este raciocínio é uma semente para o futuro. Atualmente ao serem expostas a uma idéia dessa natureza, a maioria das pessoas se sentirá “desafiada” (fazendo um trocadilho proposital com o termo) em suas crenças mais profundas de que competir é algo bom, natural, saudável…

Reforçando o que já foi dito: se não concorda com nada disso, tudo bem: seu ponto de vista e de manifestação é aceito e bem vindo. Nenhuma disputa.

Agora, se você sente ressonância com estas idéias, comece a dissolver a disputa a partir de si mesmo, lenta e progressivamente, deixando as atitudes e comportamentos de oposição aos poucos, se acostumando com isso. Trocando grandes competições por outras menos intensas. Deixando de dar audiência aos competidores, ao que acontece com eles, afinal, aquele é o drama pessoal deles, e não o seu (embora sejamos todos um…). E, principalmente, não torne este novo direcionamento numa nova guerra: não há necessidade de convencer ninguém de que a não disputa e a não competitividade é que estão certas, por si só esta atitude já é uma forma de disputa. Basta divulgar esta nova freqüência, plantar suas sementes, ser um exemplo vivo em seu próprio comportamento pacífico e receptivo, inclusive aceitando o direito daqueles que querem continuar competindo. Praticar a não-reatividade, ser o amor no mundo.

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