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Sonhos Lúcidos


Sonho lúcido é aquele dentro do qual o sonhador tem a consciência de que está sonhando.

A lucidez em sonho tem dois aspectos distintos e igualmente importantes: a consciência e o poder de alteração do conteúdo do sonho.

A consciência de estar sonhando e saber disso durante esse ato pode ter diferentes graus, desde se saber que é um sonho, mas permanecer alheio a tudo o que acontece (deixar tudo acontecer “automaticamente”) até estar tão consciente que se sabe perfeitamente que não se está sujeito às leis físicas, temporais e morais da vida desperta.

A partir desse grau mais elevado de consciência, o sonhador pode desenvolver e praticar o poder de, durante o sonho, alterá-lo. Alguns exemplos desse poder seriam a opção consciente(*) de se aventurar por capacidades/habilidades não acessíveis à vida comum, como voar, respirar embaixo d’água, alterar cenários, fazer aparecer personagens, materializar, transformar ou destruir coisas, bem como a de testar e se entregar a situações que poderiam ser extremamente delicadas no quadro da vida cotidiana, como falar todos os desaforos possíveis para um chefe mal quisto, fazer proezas numa escalada à beira de um precipício etc etc.
Na área dos exemplos sexuais (ainda um grande tabu socialmente), as possibilidades são infindas, não apenas porque os riscos de reprodução não programada e indesejada e de transmissão de doenças são nulos, mas também pelo fato de poder se desligar totalmente de convenções, limitações e imposições sociais.

(*) O sonho lúcido enquadra-se num estado consciencial muito importante e especial, diferenciado dos três citados acima (vigília, sono profundo e sono com sonho), que é o estado desperto. Como é citado por Alex Polari em seu maravilhoso texto Seriam os Deuses Alcalóides, “…Existe uma grande variedade de termos para denominar esse tipo de estado místico: consciência cósmica, visionária, xamânica, transpessoal, iluminação, autotranscendência, consciência objetiva etc. Ou para usar uma terminologia mais mística: o êxtase e a graça cristã, o sartori zen, o samadi da Jnma Yoga, a fana sufi e a “miração” da tradição daimista”.

Nesse tipo de estado há um fenômeno psíquico de ordem ímpar, que é exatamente a possibilidade de intervenção de inferências conscientes no contexto que está sendo manifestado pelo inconsciente. No nosso estado de vigília (consciente) estamos totalmente entregues às manifestações do inconsciente, como a ocorrência de atos falhos(*), manifestação de doenças e de quase todos os fenômenos metabólicos, as manifestações energéticas de nossos corpos sutis, dentre tantas outras.

(*) pensar que trancou uma porta quando a deixou aberta, pensar em uma coisa e falar/escrever outra, tropeçar, trocar um nome etc etc.

No trecho abaixo, do mesmo texto citado acima, Polari descreve a diferença entre dois processos iniciáticos distintos, ambos com fins a atingir esse estado consciencial desperto. Essas considerações são perfeitamente válidas tanto para o processo iniciático (quando a pessoa ainda não passou por esse tipo de experiência) quanto para a cada vez que acessarmos esse tipo de processo, como por exemplo, dentro dos sonhos lúcidos.

“Sem dúvida existe uma grande diferença entre uma iniciação quietista – que prepara o neófito através do silêncio e da meditação – e a iniciação xamânica que o convida para ser protagonista totalmente responsável pelo seu desdobramento astral e voo espiritual. Nele, somos convidados a participar de um filme em que as cenas que se desenrolam na tela, dependem, em última instância, do que está ocorrendo no interior da nossa consciência. Em outras palavras: só conseguiremos salvar a donzela do “filme astral” das garras do vilão, se a nossa disposição para tanto for tão verdadeira como a nossa capacidade de realizá-la. Temos que estar concentrados no nosso objetivo, mobilizando desde o nosso interior a coragem e a sabedoria necessária para atravessar as diversas provas do percurso iniciático. Caso contrário, a “narrativa visionária” sai do nosso controle podendo acontecer um desfecho negativo e uma interrupção do voo do Eu rumo ao êxtase.”

Esse desfecho negativo citado torna clara a dimensão citada no começo deste texto de que os efeitos gerados pelos sonhos, a partir da geração de emoções reais, também são reais. Tanto podemos chegar ao êxtase, a um novo conhecimento, a uma cura ou expansão de consciência como, por outro lado, podemos despertar um mal estar (inclusive com manifestações físicas intensas), um desconforto, acentuar ansiedades, se envolver de medos paralisantes dentre tantas outras coisas.

A grande vantagem de se entregar a esse tipo de vivência, mesmo com esses tipos de risco, é perceber que estamos expostos a riscos muito mais contundentes na “vida comum”, uma vez que a manifestação do inconsciente é simplesmente um fato, ela irá ocorrer de uma forma ou de outra, em decorrência de um mecanismo de equilíbrio natural do sistema psíquico.

Desenvolvendo-nos dentro do estado desperto, podemos:

  1. acessar os conteúdos do inconsciente e equilibrá-los com nossa evolução antes que eles precisem aparecer em nossas vidas na forma de fracassos, insucessos, doenças, mazelas físicas, acidentes ou quaisquer outras formas que nos afastem de nossos dharmas, nosso caminho natural, nosso estado ressonante de desenvolvimento contínuo;
  2. desenvolver e/ou ampliar nosso poder de, por possibilidade de extensão, alterarmos as manifestações já concretizadas do inconsciente no plano físico, como rejuvenescer, atingir um peso ideal ou corrigir/equilibrar configurações do nosso corpo e das nossas condições de vida.

O filme Waking Life tornou-se um clássico sobre a questão dos sonhos lúcidos, sendo brilhante tanto na apresentação do conteúdo linear, racional, quanto um exemplo prático de aplicação de elementos e ritmos subliminares (como a alternância de estados psíquicos e emocionais entre ruidosos e suaves) para ativar emoções e percepções do inconsciente, gerando efeitos como tonteira, sensação de regressão, dentre tantas outras manifestações de percepção alterada.

Uma fórmula muito simples para começar essa busca pelos sonhos lúcidos consiste, em durante o dia se perguntar “Estou acordado ou estou dormindo?” e fazer um tipo de marcação qualquer que seja do seu agrado. Algumas pessoas, após a pergunta, dão um pulinho, acendem uma luz, se beliscam, dentre tantas outras fórmulas. Pode ser que lhe baste apenas fazer uma marcação mental, verificando qual a resposta adequada para a questão. Claro que será “sempre” “estou acordado”. Esse “sempre” veio entre aspas exatamente por que aí está a chave da questão: como um dos elementos dos quais o inconsciente lança mão para criar o sonho são exatamente fatos passados durante a vigília, de acordo com a intensidade e quantidade de vezes que você começar a se perguntar isso, mais dia, menos dia, chegará a hora que durante um sonho você se perguntará “Estou acordado ou estou dormindo?”, quando a resposta conseguir atravessar o manto do inconsciente, sua consciência automaticamente estará na porta do estado desperto, da vivência mística. Caberá a você abri-la, entrar e seguir até onde alcançar ou até onde você mesmo se permitir…

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