Musicoterapia


Foto: Tattiane Caballero

Este texto é uma indicação de leitura do livro “A Loucura Cura”, de Guillermo Borja.

Abaixo estão transcritos alguns trechos do capítulo que leva o mesmo título deste conteúdo. As indicações entre colchetes [ ] contém observações e acréscimos da autoria do site Vivência em Cura.

O livro é bastante recomendado para quem aplica ou tem interesse em aplicar trabalhos ligados a processos de cura e também para quem já recebe trabalhos terapêuticos há algum tempo. É bastante esclarecedor em relação aos aspectos, dentre outros, que naturalmente fazem parte das relações entre terapeuta e terapeutizado, como, por exemplo as questões de transferência e contra-transferência.

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Notas de Musicoterapia

Desde que comecei a trabalhar, a música foi parte integrante do processo. A música e o canto são importantes formas de expressão do ser humano. Por isso a musicoterapia é um grande apoio no tratamento. A música tem som, ritmo, harmonia e melodia. Logo percebi que esses mesmos elementos formam parte do ser humano. O som é a vibração da vida. O ritmo tem a ver com a ação. A harmonia, com a carga racional. A melodia, com a carga afetiva.

Assim como há músicas que carecem de ritmo, há outras com hiperatividade rítmica. Cada uma delas tem uma repercussão no ser, seja cultural ou emocionalmente.

Em algumas músicas, como as primitivas da África, o mais importante é o ritmo. As percussões têm um reflexo no corpo e seu conteúdo é erótico e instintivo. A percussão não se intelectualiza, mas se sente; é preciso se mover. Os ritmos das tumbas e tambores não permitem a introspecção, mas convidam à explosão. Esses ritmos nos convidam a mover a pélvis, a movimentos eróticos.

As canções infantis têm como objetivo destacar a melodia. No rock é diferente, há uma ausência melódica, um trabalho mais rítmico e harmônico, de um lado intelectual e do outro ativo. Para dizê-lo de outra forma, é mais esquizóide, mais dividido.

Também é importante observar que, quando nos identificamos com certo tipo de música, para isso se tem uma resposta. A música representa aquilo que psicológica e emotivamente nos produz empatia e nos orienta para certos conteúdos, tanto afetivos quanto racionais.

Os corridos mexicanos expressam a dor de forma catártica. A música romântica escolhe um campo expressivo menos passional, mais instintivo, de conteúdos diferentes da música rancheira, que trata mais da paixão e do abandono, com uma mensagem verbal mais agressiva. Por outro lado, a música de protesto é a mais racional, com mensagens dirigidas mais à razão do que à emoção.

Podemos classificar a música em três categorias: a que evoca, a que provoca e a que explode. Algumas músicas nos convidam ao desenfreio, à catarse, à mobilização, a sairmos de nós mesmos. Outras músicas estão repletas de conteúdos emocionais, ativam memórias afetivas e provocam o surgimento de emoções internas. Também temos a música mais pura, que evoca estados superiores.

A música que provoca e a que explode têm muito a ver com os estados internos relacionados à paixão, ao ódio. O desenfreio pode levar a uma catarse total, libertadora. Os sufis, usando essas músicas, tentavam ir além do cansaço, o que não é nada mais do que uma prova de resistência do superego. A grandeza da dança é que ela convida à entrega. Os ritmos levam a superar a rigidez, a expandir-se completamente e, nessa, explosão, pode-se dançar horas e horas e entrar em estados alterados de consciência, em que não existem fronteiras para o tempo, em que não se tem medida. [veja também o texto sobre estados alterados de consciência sem o uso de psicoativos] Dessa forma atinge-se uma transformação do ser, dá-se permissão à liberação e ao caos. Essa é uma explosão sadia, que permite ao ser humano a expressão total de seu corpo.

A dança propriamente tem muitos conteúdos psicológicos. Dançar em um sessão de grupo é muito importante. Aparentemente é fácil, mas para o ser humano é muito difícil ser espontâneo e, quando tenta sê-lo, fica com cara de inteligente e de bobo, quer ser perfeccionista, educado e correto, mas nada consegue além de expressar sua repressão e sua rigidez. A espontaneidade não se limita a ritmos preestabelecidos.

Na dança pode-se trabalhar com o contato, a confiança, a capacidade de deixar-se levar e de guiar, pode-se trabalhar com a ternura. Um disc-jóquei de sucesso é um musicoterapeuta, ainda mais se trabalha sob o poderoso estímulo do alcool.[*] Manobra os clientes como ele quer. Faz com que fiquem desenfreados, desinibidos, soltos, acabando por leva-los à ternura, à aproximação, ao contato interpessoal. Em uma boa festa, um bom disc-jóquei é aquele que pode fazer aflorar todos os elementos que agradam aos seres humanos.


[*] Faz-se aqui uma restrição seriíssima a essa posição: o álcool provavelmente é o psicoativo que tem a maior capacidade de levar à perda da consciência, chegando a levar a amnésia e ao coma (alcoólico). Existem outros estados alterados de consciência, especialmente o estado expandido de consciência, que podem ser atingidos com substâncias que tem uma relação de custo X benefício e de menor nocividade, muito mais interessantes do que o álcool. Inclusive esses estados podem ser atingidos sem o uso de indutores puramente ingeríveis, como no caso de diversos tipos de respiração, jejum e tantas outras vivências místicas decorrentes do aumento expressivo do influxo energético em nosso sistema, como até mesmo pela imposição de mãos e/ou contato com uma pessoa que tenha o poder e a disponibilidade de conduzir um processo de transferência energética ou sinestesia. A esse propósito, existem alguns indicativos nos textos estados alterados de consciência sem o uso de psicoativos, vivência mística e seriam os deuses alcalóides.


Numa sessão, se estou trabalhando um experiência dolorosa e há questões reprimidas, coloco música alusiva à situação, que convida à evocação, pois dessa forma é mais provável que a lembrança ocorra. Se estou trabalhando com a figura paterna e percebo que há dificuldades para expressar aquilo que está sendo racionalizado, costumo utilizar a música apoio, para que aconteça o que estou provocando. Existe música alusiva a todos os estados emocionais do ser humano; não há nenhum estado emocional que não possamos evocar com a música ou com o canto. Existe música histérica, sonsa, agressiva, violenta, sensual, sexual…

Se estamos diante de uma resistência para falar ou para participar, é muito recomendável colocar música suave, porque só a leve mobilização energética no corpo muda a atitude.

Os reprimidos obviamente têm uma carência rítmica, não têm ritmo vital, portanto é estimulante convidá-los a contatar com o ritmo, que para eles é saudável.

A depressão é uma auto-agressão, uma agressão voltada contra si próprio. A depressão é física e não mental. É como um autismo, um fechar-se sobre si, em que há hiperatividade racional. O que convida a sair desse estado é uma mobilização energética, porque havendo energia não pode haver depressão. É impossível que em um corpo energizado caiba a depressão; poderá haver tristeza, mas não outra coisa. Sabemos que a depressão tem um alto conteúdo de raiva voltada para dentro; então, um convite à dança, à catarse rítmica, será um lançar-se para fora com menos possibilidade de destruição, com uma linha de trabalho e com boas margens de suporte para o cliente, pelo medo que ele tem. Aparentemente, dançar não tem um conteúdo terapêutico, mas, frente às tendências à imobilidade, à passividade, o que se tem que buscar é energizar. Isso facilita o trabalho e a resistência é trabalhada com a ação.

Também existem músicas para casos opostos a esses, como a histeria. Nesse caso, há um excesso de conteúdo emocional, e existem músicas e instrumentos que facilitam a introspecção, que colaboram para o contato interno. São músicas que evocam a interioridade, o sentimento, porque o histérico somente exagera a emoção para não sentir, há uma insensibilidade encoberta pela hipersensibilidade emotiva.

Para aqueles que são muito racionais é conveniente a música caótica ou, para uma maior confrontação, a música sem conteúdo. Não estou falando em exibir uma fita durante meia hora, mas algo mais drástico: durante quatro horas. Colocar o paciente por quatro horas a ouvir tabuadas de multiplicar. Algo irá acontecer. Faço silêncio, e ele que escute o que é evocado. É como colocá-lo diante de um espelho que reflete a rigidez e a racionalidade. Dessa forma provocaremos uma explosão interna e esta o colocará em contato com sua própria emotividade.

Utilizo a música para trabalhar as regressões. Primeiro faço um histórico musical do cliente. Indago que músicas conheceu na infância e na adolescência. Informo-me de suas preferências, pois baseado em seu gosto poderei me informar sobre que tipo de música me servirá de apoio. Em suas músicas posso ver traços patentes de sua personalidade, tanto de suas resistências como dos apoios de defesa que utiliza. A música é um apoio tanto para a patologia como para o bem-estar. Por isso é muito importante conhecer a música da época em que a mãe estava grávida e utilizá-la para evocar. O que procuro é acumular a maior quantidade de estímulos para conseguir uma supressão da amnésia. Pois é a amnésia que está impedindo o que em psicanálise se chama insight, ou seja, ela é o trono da resistência e do mecanismo de defesa que inibe a capacidade de conectar e de reconhecer o que foi feito.

Uma flauta pode ajudar as pessoas muito contidas; só o fato de tocar o instrumento já é um desafio para a respiração, o que produz uma mobilização curativa. Dentro de nosso corpo temos instrumentos. O coração é um órgão de percussão, que é o primeiro que escutamos. O coração é ritmo. Outro instrumento que temos é o aparelho respiratório. Esses instrumentos podem ser trabalhados, podem ser utilizados para abrir, sensibilizar ou energizar o paciente.

É curioso que os metais estejam associados às marchas militares, o que nos evoca lembranças ligadas à autoridade. Dessa forma, por exemplo, quando em grupo de terapia enfrento um elemento muito rebelde, o que faço é colocar marchas nazistas ou militares. E só pelo conteúdo que o paciente tem, tenho certeza que alguma coisa vai acontecer.

Assim como existem dependentes de certas substâncias, como o álcool, existem dependentes musicais, dependentes que têm como objetivo reforçar sua patologia. Têm seus autores prediletos. Cada música tem um conteúdo evasivo e essa evasão contribui para que a patologia se reforce, embora exista a possibilidade de o que é evasivo para alguns, para outros pode ser terapêutico.

Não há conflito no dançar para pessoas sul-americanas. Sua própria cultura lhes dá essa liberdade, mas têm muita dificuldade em ficar quietas enquanto escutam música, porque parte da patologia está na alegria compulsiva. Dessa forma, para uma determinada experiência cultural, a alegria também possui um conteúdo patológico. Mas se coloco uma música gregoriana, suas estruturas musicais evocarão outra situação. É muito difícil que alguém se levante para dançar música zen ou tibetana, pois automaticamente outras evocações são despertadas. Para cada tipo de música há algo associado.

Eu procuro que a música seja mais um apoio na terapia. Tive experiências muito fortes tanto pessoalmente quanto com meus pacientes. A música é poderosa. Tenho visto meditações profundas e estados alterados de consciência obtidos graças ao apoio musical. É preciso ensinar o paciente a escutar, a ouvir o que a música está dizendo ou evocando. A dança é muito poderosa! (…) É poderoso abandonar-se e escutar plenamente, com todos os sentidos (…). Mas para isso precisamos ensinar a escutar, pois as pessoas não escutam. E o não escutar é uma resistência. É muito fácil dizer que disso eu não gosto, mas o importante é analisar por que não gosto. E nesse ponto haverá quase sempre conteúdos de resistência.

Uma coisa tão simples e fácil como colocar um grupo em um relaxamento profundo ou em um momento de grande abertura é poder escutar o som do coração intra-uterino, o coração do bebê, que guardamos na memória, não só cerebral, mas celular. Memória que está em todo o nosso corpo, em nossa história e em cada milímetro de nossa pele, que também recolhe a vibração do som. Pois não somente ouvimos pelas orelhas, embora essas sejam o primeiro sentindo que se desenvolve intra-uterinamente. O bebê recolhe os estados emocionais da mãe pelo ritmo.

A depressão tem um ritmo específico, a angústia tem outro ritmo. Os estados de paz têm seu próprio ritmo. A angústia tem uma hiperatividade cardiovascular, como também ocorre na situação de muita alegria. No tom de voz está a qualidade melódica e também a carga agressiva. Nós identificamos com perfeição o que escutamos. Dessa forma, o que eu digo traz o conteúdo racional, mas como o digo traz o conteúdo emocional; esses dois conteúdos irão se manifestar na minha ação. Eles correspondem aos três centros… Dessa forma, a criança percebe os estados emocionais pelo som e, se bem o lembro, o parto é um ritmo. Tenho observado que pacientes que nascem por cesariana têm uma personalidade menos definida que aqueles que nascem por um parto normal.

O princípio foi o verbo. O verbo é a palavra. A palavra é som. A palavra e seu conteúdo têm grande importância. É muito fácil dizer uma palavra, mas tende-se a despersonalizar a palavra, e isso faz com que não se atinjam todos os conteúdos necessários para que a mensagem chegue e seja coerente. Existe a hipnose e o conselho. Mas sabemos que a aproximação dos grandes homens ocorreu pelo som de sua palavra. Todo o trabalho psicoterapêutico está baseado na palavra. E os ser humano, além de não escutar o que diz, não presta atenção a como diz. Dessa forma existe uma dissociação entre a palavra e o som, entre a palavra e o ritmo, entre a palavra e a expressão. Não se trata de ter boa dicção, precisamos nos envolver, estar presentes na própria palavra, na nossa palavra. E esse é o único meio para que nossa mensagem seja recebida. Mas, se não sabemos falar adequadamente, ou seja, com a emoção na palavra, com a razão na palavra, então não existe comunicação.

Um ato tão simples, mas difícil de implementar, como é a comunicação depende de três coisas: o que digo, como o digo e qual é a minha expressão corporal. Dessa forma, o que digo é a própria palavra e se dirige à razão. Como o digo se dirige ao coração. E a minha ação ratificará o que foi dito anteriormente e evidenciará a coerência daquilo que apresento. Dessa maneira, então, a mensagem poderá ser recebida. Se eu simplesmente racionalizo a palavra, então desumanizo a mensagem. Eu tenho que sensibilizar aquilo que quero dizer… A essa altura muitas coisas ficam claras, porque todas as coisas que nos aconteceram, em grande parte, foram por meio da palavra. O pai dizia uma coisa, mas fazia outra; sentia algo e expressava uma coisa diferente. É assim que se formam as mensagens duplas. A criança percebe isso perfeitamente, porque são utilizados canais diferentes. A palavra irá direto à razão, mas será filtrada pela emoção. A mensagem será coerente se os três centros estiverem envolvidos; caso contrário, ela será dissociativa. A mensagem não chegará, quer se trate de agressão ou de algo amistoso. Como todo mundo recebe as mensagens, então nasce o mal-entendido.

A música nos ajuda, nos apóia, nos facilita ser tolerantes. Acredito que, com maior quantidade de alternativas, iremos ter mais possibilidade de solução. A música é uma manifestação tão antiga quanto o ser humano. A dança é tão antiga quanto a primeira expressão do ser humano, que é o movimento. Vale a pena procurar o apoio da música, porque a imobilidade do divã não é muito gratificante. Eu acredito que o ser humano não é horizontal, mas vertical, e disso nasce a geometria da espontaneidade. O divã é bom, mas nem tudo na vida é horizontal, nem vertical. Todas as posturas fazem o ser humano. Eu estou convencido de que cada emoção tem um som, um ritmo, uma melodia e uma harmonia específica. Procuramos a empatia com a emoção ou com aquilo que representa a emoção. O que fazemos é mudar de ritmo, trocar de melodia, porque para sintonizar é necessária a presença, a atitude. Sintonizar é estar com o outro, mas, óbvio, a partir da própria empatia.

Trecho de “A Loucura Cura”, de Guillermo Borja.


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(Nas Festas que Curam é possível vivenciar a musicoterapia de forma profunda e transformadora)


Conteúdo inserido em 23/07/2004
Versão 1.2 – atualizado em 03/06/2015

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