Texto base da reflexão inicial com crédito citado conforme recebido pela Internet em sangavirtual.blogspot.com

Este conteúdo apresenta um texto inicial extraído da Palestra de Thich Nhat Hanh feita no dia 8 de junho de 2000 em Plum Village, com tradução para o português de Leonardo Dobbin.

A visão citada é da visão de mundo, ligada a nossa autopercepção enquanto seres separados e, daí, desdobrando-se em doutrinas e visão sistematizada dos cenários nos quais nos vemos inseridos e nossos posicionamentos e definições diante deles.

Após esse trecho inicial, acrescentamos um complemento falando especificamente sobre as visões que eventualmente acessamos em nossas meditações, sonhos e vivências místicas, contextualizando seu influxo energético, encaixe em nosso arcabouço mental e a importância do filtro do tempo antes da tomada de decisões, atitudes delas decorrente e, principalmente, mudanças no curso de vida.

O Buda disse num sutra que quando você ouve algo, mesmo uma palestra de Dharma, quando vê algo, mesmo uma prática, não deveria ser capturado pelo que ouviu ou viu porque isso pode ser um obstáculo para seu crescimento, para seu crescimento espiritual.

Você tem que manter sua liberdade porque o que você vê e ouve pode te dar uma visão e o fato é que todas as visões são visões erradas. As visões não nos deixam ter acesso direto à realidade.

Portanto, seja muito cuidadoso quando usar seus olhos, seja muito cuidadoso quando usar seus ouvidos, seu nariz, sua língua, seu corpo e sua consciência.

Não seja capturado por visões. Este é o núcleo dos ensinamentos, e este é o ensinamento chamado “desapego a visões”.

Se você aprendeu a prática dos 14 Treinamentos, sabe que os primeiros três treinamentos existem para nos ajudar a não ficar apegado a visões, doutrinas, ideologias e que os olhos do Buda podem ser descritos, primeiramente, como o tipo de olhos que podem nos ajudar a reter nossa liberdade.

Liberdade, não liberdade política, mas liberdade de nossas visões, liberdade de teorias, de doutrinas.

Portanto, o Buda barrou o caminho das especulações filosóficas. Isto é muito autêntico.

Você não deveria gastar seu tempo especulando sobre doutrinas, ideologias. O que você deveria fazer é aprender o caminho da prática de forma que possa identificar seu sofrimento e ver o caminho que leva à cessação do sofrimento.

Você não deveria se doar para uma ideologia, teoria ou doutrina, você não deveria se entregar à especulação filosófica. Isto é muito básico nos ensinamentos budistas.

O Buda disse, “Eu apenas ensino duas coisas: eu ensino sobre o sofrimento e a saída do sofrimento.” Seu tempo deveria ser devotado ao estudo e à prática dessas duas coisas.

E quando somos capazes de nos liberar do sofrimento, nossa mente se torna clara, então ela pode refletir a realidade última sem nenhuma procura intelectual. Sua mente se torna como um espelho que pode refletir a realidade como ela é, sem nenhuma distorção. Você é um rei e sua face é como um espelho refletindo a realidade como é, e você não precisa de nenhuma palavra, nenhum conceito, nenhuma noção.

Aquele que ainda espera pacientemente por visões dogmáticas, considerando-as as mais altas no mundo, pensando que é a mais excelente visão, depreciando as outras visões considerando-as inferiores não está ainda livre.

Meus amigos, meus alunos, não entrem nessa. Façam bom uso de seu tempo para a prática da transformação e cura.

Ao ver, ouvir ou sentir alguma coisa e considerar que é a única coisa que pode te trazer conforto e vantagem, você sempre fica inclinado a ficar preso nisso e considera tudo mais inferior. Esta é a tendência natural de cada um de nós.

Queremos confinar a verdade. É um sentimento maravilhoso sentir que temos a verdade e os outros não (risos) e assim perdemos nossa liberdade.

A atitude de ficar preso na visão pessoal e considerar as outras como inferiores, é considerada pelos sábios, como escravidão, como ausência de liberdade e, quando você não tem liberdade, seu caminho espiritual é bloqueado. Não pode fazer mais progressos.

Na semana passada, alguém me escreveu e disse “Thay, eu percebi que o caminho espiritual apenas nos satisfaz por dois ou três anos e parece que depois não podemos fazer mais progressos. Você fica muito entusiasmado durante os primeiros anos aprendendo e praticando, mas depois de poucos anos, você não sente mais avanços.”

Eu entendi imediatamente. É assim porque o que foi oferecido a ele é um conjunto de ensinamentos, um conjunto de visões, e o tipo de prática que é baseada nestas visões. É por isso que você fica preso e não pode mais fazer progressos.

A única maneira de continuar a fazer progressos no seu caminho espiritual é remover os obstáculos feitos de visões, mesmo visões da doutrina, visões sobre liberdade e transformação. Temos que nos livrar de quaisquer visões.

No Sutra das Cem Parábolas, o Buda conta a história de um jovem homem de negócios que perdeu seu filho. Ele estava ausente, era tão ocupado, e por isso não estava em casa para tomar conta do filho. Durante sua ausência, muitos piratas vieram e colocaram fogo na vila e sequestraram o garoto.

Quando o homem de negócios voltou para casa, a viu queimada, apenas um monte de cinzas. Ele entrou em pânico, estava procurando por seu filho e não podia vê-lo em nenhum lugar. Nesse estado de pânico, viu um corpo queimado de criança que acreditou ser do seu filho. Ele se jogou no chão, bateu no peito, puxou seu cabelo e chorou, porque estava ausente e por isso seu filho estava morto.

Depois de organizar a cerimônia de cremação, ele coletou as cinzas e as colocou em um saco de veludo que passou a carregar com ele o tempo todo. Comendo, dormindo ou andando ele sempre carregava o saco, porque, como não tinha mais esposa, seu filho era a única razão de sua vida. Ele era habitado por um sentimento de pesar e lamento e completamente apegado ao pequeno saco contendo as cinzas do seu filho.

Uma noite, quando estava deitado, sem conseguir dormir e chorando silenciosamente, ele ouviu batidas na porta. Era seu filho que tinha conseguido escapar dos piratas e voltou para casa, descobrindo que seu pai havia construído uma nova casa. Ele bateu na porta. Era cerca de uma hora da manhã e o pai disse: “Quem está aí?” ”Sou eu, seu filho! Por favor, abra!” O pai disse: ”Não, seu garoto mau, meu filho já morreu. Quem é você para vir a esta hora da noite para me perturbar! Vá embora!”. O garoto insistiu muitas vezes, mas o pai estava certo que o garoto estava morto.

Esta história foi contada pelo Buda que disse: ”Às vezes, na sua vida, você toma algo como verdade e fica preso nisso, e por isso você para. Não há como avançar no seu caminho espiritual e continuar a procurar a verdade. Mesmo se a verdade vier e bater na sua porta você se recusará em abri-la.”

É uma história maravilhosa sobre apego. Se você continua a sofrer, a prática do Buda é soltar as visões de forma a poder avançar no seu caminho espiritual.

Suponha que você tenha subido uma escada e chegou ao quinto degrau e, olhando para baixo, vê que é muito alto e, assim, pensa que adquiriu o mais alto tipo de visão, a visão mais bonita. Se você ficar preso nesta situação, não vai mais querer dar um outro passo, porque sempre é possível dar outro passo.

É como a ciência. Cientistas descobriram coisas e consideram-nas verdade e, se ficarem presos a isso, se acharem que é a verdade absoluta, vão parar de questionar e não poderão avançar. Um bom cientista é aquele que está pronto para abandonar suas visões porque tem a mente aberta, é livre de espírito.

O espírito da ciência é o espírito da abertura. Um bom cientista está sempre pronto para deixar ir suas descobertas de forma a dar outro passo no caminho do questionamento livre.

Portanto, a prática de desapego a visões é muito básica nos ensinamentos do Buda. Cada um de nós tem que usar seus olhos de Buda de forma a praticar assim para nos libertarmos de nossas visões. Feliz é a pessoa que é livre de visões, incluindo as visões sobre a felicidade [risos].

Há um país que acredita que a ideologia sozinha pode ajudar o país a ser forte e as pessoas felizes e por isso abraçam esta ideologia há 70 anos. Durante este tempo houve perseguições de muitas pessoas que não concordam com eles. Foram colocados em prisões, em hospitais psiquiátricos porque têm a coragem de desafiá-los sobre suas visões. Os líderes criaram muito sofrimento, morte, separação e frustração porque são muito apegados a uma visão, uma super ideologia. Você pode se agarrar a uma visão como essa por 70 anos, mas 70 anos é muito. Pode criar muito sofrimento para você e para as pessoas que você ama. Sua boa intenção está presente, mas você não tem liberdade.

Cada um de nós pode ainda ser aprisionado pela visão que temos a respeito de nossa felicidade. Acreditamos que só podemos ser felizes sob certas condições: a,b,c,d…

Portanto, de acordo com este ensinamento, ajuda muito dar um passo atrás e olhar para nossa visão a cerca de nossa felicidade. Talvez seja provável que sua visão de felicidade seja o principal obstáculo para que você seja feliz [risos].

Se tiver uma hora, duas horas, para praticar, por favor, vá, sente-se no pé de uma ameixeira e olhe para a ideia relativa a sua felicidade. Você acreditou firmemente que se não conseguisse isso ou aquilo, a felicidade não seria possível. Pode ser que se você abandonar essa visão de felicidade então ela possa vir até você aqui e agora. Nunca houve condições antes.

De acordo com o Buda, viver feliz no aqui e agora é possível para qualquer um. Você precisa apenas de uma coisa: ser livre, ser livre de suas visões. Não é que outra pessoa esteja impondo algo a você e assim você não pode ser livre. É você mesmo que se aprisiona nas suas visões.

É por isso que a prática básica do budismo é a prática de remover as visões. Nirvana é a ausência, é o silenciamento de todas as visões, porque visões e noções são a fundação do sofrimento.

Quando você for capaz de silenciar todas as visões e palavras, quando se libertar delas, a realidade se revelará sozinha para você. Isto é Nirvana. Nirvana é a cessação, é a extinção. Primeiro a extinção das visões e então a extinção do sofrimento que nasce com as visões.

Estamos bastante conscientes, estamos muito preocupados sobre nosso bem estar e o bem estar de nossos entes queridos. Queremos ser felizes, queremos que nossos filhos, parceiro, amigos sejam felizes. Não temos nenhuma dúvida sobre esse tipo de bom desejo. Mas não estamos livres. Pensamos que nosso filho somente poderá ser feliz se fizer isto. Se ele não fizer aquilo… Nossa filha só pode ser feliz se fizer aquilo, e se não fizer aquilo outro… Portanto, impomos nossas visões aos nossos amados e os destruímos por causa de nossas boas intenções.

Amar é oferecer liberdade, oferecer as condições para a outra pessoa ser livre e conseguir o correto entendimento sobre sua felicidade.

Nosso Comentário e Enquadramento

Uma vez posta essa bela “visão” sobre as visões de mundo e estruturas mentais com as quais nos identificamos colocando-se como barreiras à nossa própria felicidade, ressaltamos ao que o texto / palestra acima toca de leve em seu início ao falar de quando vemos ou ouvimos algo em nossas práticas.

Focalizamos nesse contexto especialmente as visões e insights que temos em nossas vivências místicas, sonhos e meditações.

Se já devemos ser diligentes, como mostrado no texto, em relação a nossas visões baseadas em conjuntos de crenças, doutrinas ou posicionamentos de mundo, em relação às visões alcançadas em nossas vivências místicas esse cuidado deve ser 10, 100, 200 vezes maior, uma vez que os influxos energéticos envolvidos, muitas vezes, nesses estados e experiências também pode ser muito maior.

Não raro, nos movemos uma vida inteira por motivações definidas há décadas, muitas das vezes em nossa infância e juventude, e que não fazem mais sentido atualmente. Motivações das quais até mesmo nos esquecemos, tornaram-se ocultas, que foram pertinentes quando nos ocorrem naquele momento do passado, mas que deixaram de ser pertinentes, perderam contexto e até mesmo se tornaram contraproducentes.

Sem revisarmos nossas vidas, planos e motivações, muitas das vezes sustentamos posições de vida, empregos, parcerias, amizades, locais onde vivemos e convivemos sem mais saber porque estamos envolvidos nesses contextos, muitas das vezes sustentando rotinas amargas e relações contraproducentes…

Veja bem: em nossas vivências místicas podemos acessar insights realmente valiosos, significativos e resolutivos para nossas questões, problemas e padrões danosos.

Entretanto, olhe para suas visões obtidas durante suas vivências místicas como quem lê um sonho: não importa exatamente o conteúdo da visão e sim a mensagem e sensação que elas trazem dentro do contexto em que estão acontecendo.

Nosso inconsciente, quando necessário, lança mão de imagens e contextos que precisamos para nos fazer sentir ou acessar configurações às quais não chegaríamos em nosso estado de vigília comum.

Portanto, o que precisávamos em nossas vivências era, por exemplo, de uma sensação de bem estar, satisfação e realização, daí nosso inconsciente lança mão de algo que nos faça sentir isso durante nossa vivência. Pega, então, uma situação de nosso contexto do momento, monta com os pensamentos e sentimentos que nos rondam durante nossa vivência e faz surgir uma situação idealizada em imagens de nossa vitória e ascensão. Então, podemos nos ver em determinado emprego ou nova situação, realizando algo formidável de determinada forma.

Isso tudo pode fazer muito sentido e ser totalmente pertinente durante a vivência, mas não implica necessariamente em o ser também para a nossa rotina e encaminhamentos do dia a dia e de vida. Compreende?

Como fazer, então, para distinguir entre essa eventual necessidade momentânea e uma instrução / alinhamento realmente pertinente para a implementação de uma mudança de curso de vida, realinhamento de ações, companhias, amizades etc?

O primeiro direcionamento chamamos de filtro do tempo. Dê chance e cabimento para que o filtro do tempo trabalhe antes de tomar atitudes e implementar mudanças significativas. Respeite a proporcionalidade do poder e intensidade dessas mudanças em relação ao tamanho do filtro do tempo a ser considerado.

Quanto mais profunda a mudança, mais pertinente aguardar com calma o filtro do tempo, ser diligente em relação a receber novos sinais e confirmar os três sins para a sua ação e mudanças:

► O sim da mente;

► O sim do coração;

► O sim da base, de sua força de ação.

Na dúvida, busque primeiro o sim incontestável de seu coração. É como estar apaixonado: não há dúvidas…

Tudo posto até aqui em relação às vivências místicas, que dependendo de seus influxos, contextos e indutores, especialmente os psicoativos e psicodélicos, podem ser arrebatadoras, estrondosas e até desestruturadas.

Em relação aos sonhos, é melhor ter uma metodologia adequada para sua integração. A este respeito, veja o conteúdo “Integrando os Sonhos”.

A meditação (desconsiderando-se as ativas em alguns casos) é um método muito estruturado, portanto podendo trazer as visões mais equilibradas e assertivas. Mesmo assim, ainda sujeitas às nossas “viagens na maionese” [risos], especialmente no que poderemos fazer após os momentos das meditações e visões em si, com nossa estrutura mental normalmente rígida e condicionada já citada no texto inicial.

A mente tem a incrível capacidade, por exemplo, de tornar ruins momentos que já foram bons enquanto ocorreram e vice versa. O que dirá de distorcer contextos sujeitos a grande variação de interpretações e variações…

Esteja atento, esteja atenta: mente firme e aberta ao mesmo tempo. Coração tranquilo. Navegação suave focada no que importa. Seja feliz independente da situação dada. Dê esse presente ao mundo.

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